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AQUI TEM DE TUDO UM POUCO!

 

VARIEDADES 

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Sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A CIBERSOLIDÃO

 

                * Jô Drumond

 

Uma nítida mudança comportamental está acontecendo na era contemporânea. Não se podem negar os benefícios e a comodidade da era virtual. Apesar de adepta de novidades tecnológicas, em vez de fazer uma apologia ao novo estilo de vida, prefiro fazer uma reflexão sobre o período de transição que estamos vivendo.
 

Há os internautas  compulsivos, aqueles que não se separam do aparelhinho mágico nem mesmo na hora do banho ou do sono; há os que conhecem superficialmente as novas tecnologias, se interessam pelas novidades, mas ainda não aderiram totalmente a elas; há os que simplesmente as desconhecem, sobretudo nos rincões de nosso imenso país; há também os tradicionalistas ferrenhos, por que não dizer retrógrados, que fazem questão de não aderir às novidades tecnológicas.


Até bem pouco tempo, ninguém sentia falta de smartphone, nem das redes sociais, simplesmente porque desconheciam as novas tecnologias. Hoje em dia, a dependência tecnológica faz com que certas pessoas não consigam viver desconectadas. Pode-se perder o trem, o avião, um amigo, uma joia, mas não se pode perder o smartphone.

A sociedade vai se adaptando aos novos comportamentos. Enquanto isso, vão surgindo novos costumes, novas crenças, novos conceitos, novos mitos, novas regras de conduta, novo estilo de vida... Por conseguinte, uma nova ética comportamental vai se estabelecendo.


O ser humano é um animal gregário. O temor da solidão ou do isolamento torna-o dependente de experiências coletivas. Em tempos idos, sentia-se compelido a fazer parte de um clã. Hoje sente-se atraído a fazer parte de uma rede social. As redes resolvem, embora parcialmente, o problema da solidão. A interação é prazerosa, rápida e eficiente. Surgem dezenas, centenas de novos amigos, mesmo que sejam amizades superficiais. Há um desvão entre amizade real e virtual. Não se pode dizer se isso é bom ou ruim. O fato é que é diferente.


Em todas as circunstâncias, o aficionado não se desgruda do smarphone. Fotografa tudo que vê. Não pode mais ir a um evento social, sem ser alvo de câmeras profissionais, de câmeras amigas ou inimigas, e também de câmeras escondidas. O fato de postar fotos de outrem nas redes sociais, sem a devida autorização, já se banalizou. Tal procedimento pode ensejar tanto situações prazerosas quanto situações constrangedoras para o fotografado.


Há pouco tempo, fui convidada para uma pequena comemoração de aniversário. Ao entrar no facebook encontrei fotos da festa postadas por convidados, seguidas de diversas reclamações de amigos do aniversariante, que se sentiram excluídos, por não terem sido convidados. O anfitrião, em apuros, teve que se justificar perante os que reclamaram publicamente, sabendo que outros certamente se sentiram excluídos, após a visualização das fotos. Entre os jovens, ouve-se frequentemente: “fulano é meu amigo no facebook”.


Na verdade pouco se sabe a respeito desse “amigo”. Não se sabe o verdadeiro nome, a idade, o sexo, nem mesmo as intenções que se escondem atrás da máscara virtual.

Certo dia perguntei a um jovem aluno meu, um cibersolitário compulsivo, se as amizades e os namoros virtuais são melhores que os reais. Ele me respondeu que são bem melhores, pois não se perde tempo. Pode-se relacionar com várias meninas ao mesmo tempo, sem ter a chateação de dar atenção especial ou satisfação a nenhuma delas. “Além do mais — disse-me ele — estando conectado, não tenho ouvidos para conselhos, broncas nem ladainhas de meus pais.”7

Não há nada mais desagradável que interromper uma conversação face a face para que o interlocutor dê uma vista d’olhos nas mensagens que entram a cada instante em seu smartphone. Caso alguma mensagem seja interessante, ele se esquece de que, diante de si, há alguém à sua espera, para continuar o diálogo interrompido.

Seguem-se alguns relatos de situações constrangedoras, relacionadas à utilização indevida e antissocial do telefone eletrônico.

Uma conhecida minha foi a um restaurante com o namorado. Enquanto aguardavam a refeição, ele entrou na internet, pelo celular, e se deixou levar de tal forma, que o entorno deixou de existir, assim como a pessoa que o acompanhava. A moça, depois de aguardar um bom tempo, sem ter o que fazer, nem com quem conversar, se levantou e tomou um táxi. Ao ser interrompido pelo garçom, prestes a servir o jantar, sentiu falta da namorada. Supôs que tivesse ido ao toilette e aguardou. Como ela tardava, perguntou ao garçom se ele a tinha visto. Foi informado de que ela havia saído do restaurante havia cerca de dez minutos. Resultado: Jantou sozinho e perdeu a namorada.

Uma amiga minha, incomodada com o uso compulsivo do celular pelo marido, sempre que saiam para jantar fora, pediu-lhe que não levasse o telefone ou que o desligasse para que pudessem tomar uns drinques sem ser interrompidos. Ele lhe respondeu que, nesse caso, preferia não sair de casa. Não há casamento que resista a isso. Além dos transtornos causados nas relações familiares, no trânsito, nem se fala! Tal telinha em mãos de incautos motoristas representa um perigo iminente para todos nós em cada estrada, em cada rua e em cada esquina.

Em uma mesa de bar ou de restaurante, nota-se a grande diferença entre um grupo usuário do smartphone de outro grupo que ainda não aderiu à novidade eletrônica. Estes mantêm uma postura de diálogo, face a face, olhos nos olhos. Aqueles estão próximos apenas geograficamente, mergulhados em outro mundo bem mais instigante que o seu.

Certa vez, durante uma consulta, o médico, em acintoso ultraje, interrompeu cinco vezes meu relato dos sintomas, para atender ao telefone. Ao terminar cada interrupção, perguntava: “Onde foi que paramos? O que você estava dizendo? Onde é que nós estávamos?” O fato é que ele não prestava a mínima atenção ao que eu dizia. Após tantas interrupções, poderia dar um diagnóstico confiável? Saí de lá indignada, com a firme intenção de nunca mais voltar. Resultado: perdeu a cliente.

Na maioria das vezes, as relações virtuais se sobrepõem às pessoais. Há que se criar uma ética para o uso das redes sociais e um tratamento adequado para a dependência tecnológica. Como foi dito inicialmente, com o tempo as coisas se ajustam. O ser humano tem uma incrível capacidade de adaptação. Possivelmente, no futuro, haverá um equilíbrio entre real e virtual. Os relacionamentos sobreviverão à era tecnológica.
 

*Jô Drumond (Josina Nunes Drumond)

Membro de 3 Academias de Letras (AFEMIL, AEL, AFESL)e do Instituto Histórico (IHGES

REVOADA DE LETRAS
No décimo oitavo aniversário do Clube do Livro de Vitória, neste mês de outubro de 2015, todos os participantes foram brindados com uma bela obra de arte de rara leveza, de autoria de Ana Paula Castro. Trata-se de uma obra altamente polissêmica. A riqueza simbólica do livro aberto, do voo e do colibri permite uma enorme gama de interpretações.
Parte-se de base sólida, em madeira, contendo o nome do leitor, passa-se pela consistência sintática e morfológica do livro e chega-se à volitante inconstância das letras, guiadas por um beija-flor. Letras se descolam do livro, se deslocam em torvelinho e alçam voo "colibritante".
Sabe-se que o voo é um elo entre o plano terrestre e o celeste. Simboliza também liberdade, movimento e audácia. As letras, por sua vez, representam o movimento. O colibri, tido como mensageiro de tempo, simboliza o infinito. 
Destarte, a obra contendo letras em movimento, aliadas ao voo de um beija-flor, pode representar a infinita liberdade proporcionada pelo conhecimento, por meio da leitura.
No percurso livro/leitor/leitura, parte-se da concretude do livro, passa-se pela imponderável magia do significante e chega-se à inefabilidade do significado. Ao abrir uma página, abre-se a comporta dos sonhos. A revoada de letras corresponderia ao efeito da leitura.
Assim como o voo de um pássaro, o livro entremeia terra e céu, forma e conteúdo, concreto e abstrato (pés no chão e cabeça nas nuvens).
Na obra de Ana Paula Castro, tipos moldados, normalmente presos  à sintaxe, se misturam, se desmantelam e se dispersam no ar, ensejando a fruição de veleidades resguardadas no recôndito do ser.
Parabéns ao Clube do Livro, por ensejar novos horizontes a cada indicação de leitura. Obrigada, presidente Simone, pela memorável tarde comemorativa da maioridade de nosso Clube (18 anos).


                            Jô Drumond

 Frank Dicey (1838-1888) The Novel,
A Lady in a Garden reading a book. 
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LENDO 

Ricardo Cejudo Nogales

Espanha - 1952

 

 

 

Jô Drumond recebe mais

um prêmio literário

 AGÊNCIA ANVA

 

A escritora Jô Drumond, colunista deste portal, acaba de ser agraciada com o prêmio literário “Livraria Asabeça & Bignardi Papéis 2019”, referente ao poema  “Desassossego”.  Jô Drummond e a Scortecci Editora estão convidando para o lançamento da Antologia de Poesias “Asabeça Cabeça que Voa.

Lançamento será no próximo dia 07 de dezembro de 17h às 19h no Espaço Scortecci, na rua Deputado Lacerda Franco, 96, bairro de Pinheiros, São Paulo/SP.

Sobre Jô Drumond

Josina Nunes Drumond – Pós doutora em Literatura Comparada, pela UFMG,Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e Mestre em Estudos Literários, pela UFES. É Pós-graduada (latu sensu) em Arte e Cultura Barroca pela Universidade Federal de Ouro Preto e em Literatura de Língua Portuguesa, pela UFES. Tem três graduações: Letras pela UFMG, Lingua, Literatura e Civilização Francesas, pela Université de Nancy (França) e Artes Plásticas pela UFES.

Autora de vários livros, Jô Drumond tem artigos, contos, crônicas, poemas e ensaios publicados em antologias, jornais, revistas de pós graduação, anais de congressos e na internet.

É tradutora juramentada do Estado do Espírito Santo. Membro da diretoria da Academia ES de Letras e da Academia Feminina de Letras do ES. É membro também do Instituto Histórico e Geográfico do espírito Santo, da Academia Feminina Mineira de Letras, do Conselho Estadual de Cultura e do Comitê da Aliança Francesa de Vitória.

 

PRÊMIO LITERÁRIO

Abaixo, o Poema que deu o prêmio a Jô Drumond

DESASSOSSEGO

Minha ampulheta se esvazia

a verdade se torna vária

minha certeza se enche de dúvidas

meus versos se descompassam

na arritmia do meu coração

Quanto tempo me resta, doutor,

para descobrir o mundo?

Como dissipar meu desassossego?

Prenderei meus anseios dentro do espelho

viajarei na linha sinuosa do horizonte

atravessarei os lindes do imponderável

largarei as amarras do viver

antes que o nada se apodere de meu ser

No leito do rio seco

viceja a saudade

No leito da morte

desponta a eternidade

VISITE O LINK:

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A língua mãe
Não sinto o mesmo gosto nas palavras:
oiseau e pássaro.
Embora elas tenham o mesmo sentido.
Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe?
Seria porque eu não tenha amor pela língua
de Flaubert?

Mas eu tenho.
(Faço este registro porque tenho a estupefação
de não sentir com a mesma riqueza as
palavras oiseau e pássaro)
Penso que seja porque a palavra pássaro em
mim repercute a infância
E oiseau não repercute.
Penso que a palavra pássaro carrega até hoje
nela o menino que ia de tarde pra
debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux
Só tinha pássaros.
E o que me ocorre sobre língua mãe.


- Manoel de Barros, em "O fazedor de amanhecer". São Paulo: Editora Salamandra, 2001.

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Victor Gabriel Gilbert
Pintor francês (1847-1933)
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Fernand Toussaini
Pintor belga (1873-1956) Charles 
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Bolo de nosso aniversário de 20 anos
Bolo lindo e
delicioso

Tabacaria

Fernando Pessoa

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 

Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 

Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? 

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento 
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim... 
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, 
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
O mundo é para quem nasce para o conquistar 
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordámos e ele é opaco, 
Levantámo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. 

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa. 

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) 

Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. 

Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime. 

Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei. 
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. 
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. 

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. 

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 
// Consultar versos e eventuais rimas

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História fascinante, 2013

Bryce Cameron Liston (EUA, 1965)

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Poema do amigo aprendiz.

Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.

Nem tão longe e nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu puder.

Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,

Da maneira mais discreta que eu souber.

Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.

Sem forçar tua vontade.

Sem falar, quando for hora de calar.

E sem calar, quando for hora de falar.

Nem ausente, nem presente por demais.

Simplesmente, calmamente, ser-te paz.

É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!

E por isso eu te suplico paciência.

Vou encher este teu rosto de lembranças,

Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…

Fernando Pessoa

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